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Respostas para perguntas mais freqüentes
sobre Taxonomia, Sistemática, Classificação e Nomenclatura
Zoológica, com exemplos em moluscos
Quais são os objetivos da nomenclatura biológica?
Os objetivos da nomenclatura biológica são possibilitar a comunicação
e a indexação das informações existentes sobre
os organismos. A nomenclatura assegura nome único e distinto para cada
táxon, promovendo a estabilidade e a universalidade dos nomes científicos.
Cada espécie possui um nome que consta de um binômio:
um nome genérico, seguido de um nome (ou epíteto) específico.
Por exemplo, o nome científico do berbigão ou vôngoli
é Anomalocardia brasiliana (Gmelin, 1791). O primeiro aspecto
que se pode notar é que essa espécie possui mais de um nome
popular, o que pode originar confusões e atrapalhar a indexação
de novas informações que continuam a ser obtidas sobre o molusco.
Entretanto, o nome científico é um só. Ele deve ser escrito
de maneira destacada, em caracteres itálicos ou sublinhado. Outro aspecto
a ser ressaltado é que, em seguida ao nome da espécie, estão
citados o nome do autor (Gmelin) e o ano em que a espécie foi descrita
(1791). Segundo o código de nomenclatura zoológica, as
informações referentes ao autor e à data de publicação
não fazem parte do nome específico, mas são geralmente
citados, pelo menos na primeira vez que se faz referência a ele no trabalho.
Portanto, o nome científico do berbigão pode ser citado como
Anomalocardia brasiliana (Gmelin, 1791), Anomalocardia brasiliana
(Gmelin), ou apenas Anomalocardia brasiliana.
O que é uma espécie (ou um táxon) “incertae
sedis”?
É uma espécie, ou um táxon supra-específico, que
possui posição taxonômica incerta. Os taxonomistas não
conseguem posicionar o táxon no sistema de classificação
vigente. Comparar com “nomen dubium”, que possui conceito
diferente.
Nova combinação (comb. nov). Por que os nomes dos autores
das espécies aparecem às vezes entre parênteses, e outras
vezes sem os parênteses?
Vamos analisar os nomes científicos de três espécies do
gênero Anomalocardia:
Anomalocardia flexuosa (Linnaeus, 1767) - China.
Anomalocardia producta Kuroda & Habe, 1951 - Sudeste da Ásia
e Japão.
Anomalocardia brasiliana (Gmelin, 1791) - Brasil e Caribe.
Pode ser observado que o nome
do autor e a data dessas espécies aparecem ou não entre parênteses.
Teria sido desatenção, falta de uniformidade ou uma opção?
Na realidade, trata-se da observância de uma regra do código
de nomenclatura zoológica. A ausência dos parênteses
indica que a espécie foi descrita originariamente naquele gênero;
a presença dos parênteses significa que a espécie foi
originariamente descrita em outro gênero, sendo posteriormente transferida
para a atual combinação. No caso da primeira espécie,
Linnaeus descreveu a espécie como Venus flexuosa, em 1767. Schumacher,
em 1817, descreveu o gênero Anomalocardia, designando como espécie-tipo
do gênero Venus flexuosa Linnaeus, 1767, espécie da China,
mas não incluiu a espécie brasileira na combinação
atual. A espécie brasileira foi descrita por Gmelin (1791) como Venus
brasiliana, e posteriormente transferida por Dall (1902) para o gênero
Anomalocardia. É interessante observar que o autor (ou autores)
que realiza novas combinações genéricas, não é
citado no nome das espécies de animais.
Quais as regras principais para a formação de um nome genérico?
O nome do gênero (e também do subgênero) consiste de um
substantivo no nominativo singular e deve ser palavra formada por mais de
uma letra. Podem ser palavras masculinas, femininas ou neutras. A determinação
do gênero gramatical do nome genérico é fundamental, pois
o segundo nome do binômio (ou epíteto especifico) deve concordar
gramaticalmente com ele. Alguns nomes de gêneros são dados em
homenagem a pessoas, e o código apresenta as seguintes recomendações
para formações desses nomes: se terminados em consoantes, utilizar
os sufixos -ius, -ia
(Spengler, Spengleria rostrata;
William, Williamia krebsi), -ium;
se terminados na vogal a: -ia; se terminados
em vogal diferente de a: -us, -a
(Fargo, Fargoa buschiana), -um.
Existem outros sufixos, por exemplo, -ella,
Cooper, Cooperella atlantica, gênero
gramatical feminino. O nome do homenageado pode ser utilizado como prefixo,
por exemplo, Mikado, imperador do Japão, Mikadotrochus
notialis, ou Crassatella (Riosatella)
riograndensis, em homenagem ao Prof. Eliézer Rios. O nome do
gênero pode ser um conjunto de letras ou palavras, sem significado biológico
algum, como em Piseinotecus Marcus, 1955; os professores Ernest e Eveline
Marcus tiveram um gato chamado Teco. Uma noite, alguém pisou no rabo
do Teco, que começou a miar. Daí Piseinotecus, gênero
gramatical masculino, Piseinotecus divae.
Quais as regras principais para a formação de um nome de espécie?
O nome da espécie consiste de uma combinação binária,
Gênero + espécie. O nome específico deve ser sempre uma
palavra com mais de uma letra. Pode ser:
- um adjetivo no nominativo
singular, o qual deve concordar com o gênero gramatical do nome do gênero,
masculino, feminino ou neutro. Em geral, a desinência é –us
para o masculino, -a para o feminino e
–um para o neutro, mas depende da
declinação. Por exemplo, exiguus (m), a(f),
um(n) é um adjetivo latino que
significa pequeno. Foi utilizado nas seguintes espécies: Brachidontes
exiguus, Janthina exigua
e Vexillum exiguum. Nem sempre
a terminação do adjetivo segue o padrão -us,
-a, -um.
Por exemplo, o adjetivo “belo ou formoso”, em latim, é
pulcher (m), pulchra
(f), pulchrum (n). Como exemplos de nomes
de espécies formados por nomes de gênero masculino, feminino
e neutro, combinados com esse adjetivo, temos: Murex pulcher (m), Trigonostoma
pulchra (f) e Calliostoma pulchrum (n). Outros adjetivos latinos
com três terminações diferentes: glaber
(m), glabra (f), glabrum
(n) (= liso, sem pêlos); paluster
(m), palustris (f), palustre
(n) (= que vive nos pântanos). Os adjetivos latinos podem ter duas terminações
distintas, sendo a mesma para o masculino e o feminino, como em fragilis
(m), fragilis (f), fragile
(n) (= frágil) ou mirabilis (m),
mirabilis (f), mirabile
(n), que significa maravilhoso, e foi empregado nas espécies Pedipes
mirabilis (m), Strigilla mirabilis (m) e Triphora mirabile
(n). Alguns adjetivos latinos possuem terminação única,
qualquer que seja o gênero, como em bicolor
(m), bicolor (f), bicolor
(n) (= com duas cores), ou atrox (m),
atrox (f), atrox
(n) (= cruel). Em caso de dúvida, consultar o dicionário.
- um substantivo no nominativo
singular, usado em aposição. O substantivo em aposição
não precisa concordar com o gênero gramatical do nome do gênero.
Exemplos: Conus baiano, Conus carioca, Calliostoma hassler,
e Turbonilla kaapor; baiano e carioca são substantivos que designam
os habitantes de determinadas regiões do Brasil; Hassler é o
nome de um navio norte-americano de pesquisas que visitou as costas do Brasil
em 1872, e Kaapor é o nome de uma tribo de indígenas do Brasil.
- um substantivo no genitivo.
Utilizado para homenagear pessoas; se o homenageado for do sexo masculino,
é empregada a desinência -i
(singular, masculino), como em Adelomelon riosi,
homenagem ao Dr. Eliézer Rios; se for do sexo feminino, é utilizada
a desinência -ae (singular, feminino),
como em Plicolinda zelindae, homenagem
à Dra. Zelinda Margarida Leão. Se os homenageados forem dois
homens, ou um casal, é utilizada a desinência -orum
(masculino), como em Polystira coltrorum
e Siratus coltrorum, homenagens
aos irmãos José e Marcus Coltro, e Olivancillaria buckuporum,
homenagem a Profa. Erika Helena e ao Dr. Ludwig Buckup. Se os homenageados
forem duas mulheres, é utilizada a desinência -arum
(f). Pode ser utilizado, também, em outras situações,
como por exemplo, localidades geográficas: Nassarius antillarum
(= Nassarius “das Antilhas”), Conus scopulorum
( = Conus “dos rochedos”). Deve ser observado que, nesses
casos, os genitivos não se alteram, não importando o gênero
gramatical do nome do gênero, assim como ocorre com os nomes em aposição.
Transferência de espécie de um gênero para outro. O que
acontece com o “nome” específico (epíteto específico)
de uma espécie quando ela é transferida para outro gênero?
Se a espécie for transferida para outro gênero (ver “nome
de autor entre parênteses”), o epíteto específico,
quando adjetivo, deverá concordar com o gênero gramatical do
novo gênero. Por exemplo: Natica é um nome feminino; Natica
sulcata é situada, por alguns autores, no subgênero Stigmaulax
(masculino), resultando a combinação Natica (Stigmaulax)
sulcata. Se o subgênero for elevado a gênero, o adjetivo
do epíteto específico (sulcatus, -a,
-um) deverá combinar com o gênero
do novo nome genérico, Stigmaulax (masculino), resultando a
combinação Stigmaulax sulcatus.
Considerar um nome como gênero
ou subgênero pode alterar o epíteto específico do nome
correto?
Gmelin descreveu Buccinum caudatum Gmelin, 1791. Esse mesmo táxon
foi descrito, subseqüentemente, por outros autores, recebendo as seguintes
denominações (sinônimos juniores):
Fusus cutaceus (Lamarck,
1816);
Cassidaria cingulata Lamarck, 1822;
Cymatium (Linatella) cingulatum peninsulum M. Smith,
1937;
Cymatium (Linatella) neptunia Garrard, 1963.
Se a espécie for considerada
no gênero Linatella, seu nome correto é Linatella caudata
(Gmelin, 1791). Porém, Beu (1998) considerou Linatella como
subgênero de Cymatium, e o nome da espécie passaria a
ser Cymatium (Linatella) caudatum (Gmelin, 1791). Entretanto,
já existe outra espécie de Cymatium com o mesmo epíteto
específico: Cymatium (Ranella) caudatum (Gmelin,
1791), acarretando homonímia (= duas espécies distintas com
o mesmo epíteto específico em um mesmo gênero), o que
não é permitido pelo Código Internacional de Nomenclatura
Zoológica. Pode ser observado que as duas espécies foram
publicadas pelo mesmo autor (Gmelin), no mesmo ano (1791), no mesmo trabalho.
Cumpre informar que Cymatium (Ranularia) caudatum (Gmelin,
1791) tem precedência de publicação, pelo número
da página, e portanto Cymatium (Linatella) caudatum
(Gmelin, 1791) é considerado um homônimo júnior secundário.
O primeiro nome disponível para esse último táxon é
Fusus cutaceus (Lamarck, 1816), e o nome correto resulta Cymatium
(Linatella) cutaceum (Lamarck, 1816).
Portanto, neste exemplo, o nome correto da espécie é distinto,
caso Linatella seja considerado gênero ou subgênero: Linatella
caudata (Gmelin, 1791) ou Cymatium (Linatella) cutaceum
(Lamarck, 1816), respectivamente.
Dúvidas sobre o gênero gramatical de um nome, gênero ou
espécie?
É preciso ter atenção, pois nem sempre o gênero
gramatical de um nome de gênero é o que aparenta ser à
primeira vista. Por exemplo, Calliostoma é neutro, mas costuma
ser tratado na literatura como feminino, por terminar em –a.
Porém stoma (= boca, abertura) é palavra grega, gênero
gramatical neutro. Dessa forma o nome correto é Calliostoma militare
e não Calliostoma militaris. Existe um dicionário de
gêneros gramaticais de nomes científicos, disponível na
Internet em “
Malacolog.Version 3.3.3.
”, http://data..actnstsci.org/wasp/. Clicar em “the gender dictionaries”,
preencher o quadro “epithet” com o nome do gênero ou espécie,
clicar em “search” e aguardar o resultado. Por exemplo, a busca
“Calliostoma” resulta “gender neuter”, e “militare”
resulta “adjective”, “alternative endings: militaris,
masculine, feminine”.
Quais os procedimentos para que a descrição de uma espécie
nova seja considerada válida?
Os procedimentos estão previstos no Código de Nomenclatura
Biológica. Os principais são os seguintes: o nome deve ser
publicado em uma revista ou livro, que assegure divulgação com
propósito de utilização científica. Cópias
do trabalho devem estar disponíveis aos interessados, mediante venda
ou distribuição gratuita. Após 1999, são considerados
válidos nomes publicados de forma não convencional, na Internet,
por exemplo, desde que o texto liste cinco Bibliotecas importantes que tenham
recebido uma cópia do trabalho.
Não são considerados trabalhos publicados: após 1930,
manuscritos reproduzidos por fac-símile; fotografias; provas tipográficas;
microfilmes; registros sonoros; etiquetas de exemplares; cópias de
artigos não publicados; textos ou ilustrações distribuídos
por meio eletrônicos (ex. Internet); resumos de artigos, painéis
ou textos de palestras, apresentados em reuniões científicas.
O que é série-tipo de uma espécie?
São todos os exemplares em que o autor da espécie se baseou
para fazer a descrição específica. Se o autor quiser
excluir um ou mais exemplares examinados, sobre os quais possui dúvidas
quanto à associação específica, deve assinalar
claramente a exclusão.
O que é “tipo”?
“Tipo” é o padrão de referência que determina
a aplicação precisa de um nome zoológico. O tipo de uma
espécie nominal é um exemplar, o de um gênero nominal
é uma espécie nominal, e o de uma família nominal é
um gênero nominal. Por exemplo, o tipo de Conus henckesi Coltro,
2004 é um exemplar rotulado como “holótipo” e depositado
na coleção malacológica do Museu de Zoologia da Universidade
de São Paulo. Além desse holótipo, existem outros exemplares
utilizados na descrição original da espécie e que foram
designados como parátipos e depositados em outras coleções.
O tipo do gênero Conus é a espécie Conus marmoreus
Linnaeus, 1758. O tipo da família Conidae é o gênero Conus
Linnaeus, 1758.
O Código Internacional de Nomenclatura Zoológica recomenda que
os holótipos, assim como os demais tipos (ver “principais tipos
do grupo da espécie”), sejam depositados em instituições
que possuam infra-estrutura para preservar os exemplares nas melhores condições
e os mantenham acessíveis para estudos.
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